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Encontrar espaço para o silêncio

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"É impressionante, é estranho, sentir o silencio; parece que o silencio externo, faz com que o ruido interno se intensifique. De repente, é avassalador ouvir o silencio."

Após uma sessão de acompanhamento terapêutico, senti necessidade de rever o conceito de silêncio e como ele nos traz segurança ou insegurança.
Jovem de 25 anos que necessitou de viver, temporariamente, noutra casa, longe da cidade.
Começou por expressar: “É impressionante, é estranho, sentir o silencio; parece que o silencio externo, faz com que o ruido interno se intensifique. De repente, é avassalador ouvir o silencio. Não entendo”.
Como aprendi com um professor da minha formação em terapia gestalt – se não entendem, não há problema, Sintam!

Fomos “formatados” para não sentir e sim a pensar e a intelectualizar a vida.

Vivemos numa sociedade de informação e comunicação, o que nos conduz a um excesso de ruído auditivo e visual. Estamos tão habituados a receber ruído e estímulos que quando estes não existem, podemos sentir-nos perdidos, aborrecidos, inquietos ou incomodados. Desta forma, quase de forma automática, ligamos o rádio quando vamos a conduzir, quando acordamos, quando fazemos exercício ou quando estamos na fila do supermercado….o pretexto será por tudo e por nada.

A questão é que recorremos, frequentemente, a estímulos que chegamos a um ponto em que já não conseguimos passar sem eles. Somos invadidos através das redes sociais, o email, o telefone com mensagens de texto, alertas,… a distinção entre público e privado diluiu-se. A energia gasta para dar resposta a todos estes estímulos, pode afetar-nos, pois vamos consumindo os nossos recursos, contribuindo para uma situação de stress.

O silêncio que falo nesta pequena reflexão, não é um silêncio mecânico. Aprendemos que a tristeza, a vergonha ou medo não são tópicos para partilha. Partilha significa uma espécie de perda de autocontrolo. O nosso mundo interno e o externo são inseparáveis, um depende do outro. É essa compressão que nos permite reconhecer a nossa condição natural de paz e nos ajuda a remover os obstáculos – que são ditos virem de fora – e que justificam a perda da experiência natural de paz. Sem essa compreensão do mundo interno, nós vamos cair em equívocos e iremos sentir-nos miseráveis e dependentes. O nosso esforço é sustentar as coisas/ experiências apenas do lado de fora para que elas sustentem os desejos e apegos e possamos colher o que desejamos para evitar o que nos frustra.

O reconhecimento emocional é considerado uma competência social fundamental que permite a interação, sendo um mecanismo de comunicação no relacionamento adequado com o mundo e com os outros. O stress pode ser consequência de não estarmos a conseguir acompanhar todas as nossas tarefas diárias. Como o dia mantém as mesmas 24 horas, só nos resta a opção de reduzir o número de tarefas. Frequentemente, em consulta expressam, “mas isso é impossível, não sei onde possa cortar”. 
A questão é que estamos tão assoberbados que nem sequer conseguimos ter uma visão macro da situação, ou seja, dar um passo atras e ver a big picture.

Partilho algumas sugestões:

1. Prioriza o que é importante

a. limitar algumas atividades não significa que as tenhas de abandonar por completo;
b. Abdicar de uma só tarefa ou responsabilidade pode fazer uma grande diferença no teu dia ou semana;
c. Os momentos de pausa permitem-te valorizar e desfrutar das outras atividades que escolheste manter;
d. Começar a dizer “NÃO” representa uma mudança para uma forma de vida mais consciente

2. Perguntas a ter conta antes de dizer “SIM

a. É essencial?
b. Faz-me feliz?
c. Tenho tempo suficiente para viver esta atividade de modo presente e plenamente?
d. É algo que precise de fazer?

3. Expectativas realistas sobre o que deveria estar a fazer

Vivemos uma época em que somos bombardeados sobre mensagens como deveríamos estar a viver a nossa vida. A consequência desta exigência pode ser a desilusão connosco mesmos. Assim, fica um momento em silêncio e descobre o que é melhor para ti (por exemplo: será maravilhoso levares o teu filho às atividades extracurriculares, mas se houver uma semana em que não consigas, está tudo okay. Na próxima semana farás essa atividade com mais prazer e presença do que teres de fazer porque sim).

4. Existirem demasiadas opções

Recordo nos anos 80 ter tido a oportunidade de visitar um pais que vivia uma ditadura e, decorridos 40 anos, recordo como se tivesse sido ontem: as prateleiras dos supermercados apenas tinham uma opção de leite, de iogurte, de detergentes… e eu, em plena adolescência, pensei “que triste!, não tenho hipótese de escolha.”
Hoje, com a minha idade, sou capaz de ter outra visão e perguntar-me “ será que tenho mesmo muitas opções?”

Ter muitas opções pode contribuir para sentirmo-nos confusos e aumentar o stress. Escolher também requer tempo. Também é muito interessante o desenvolvimento do movimento do minimalismo, que vem ao encontro do que acabei de escrever (ex: ter poucas peças de roupa, quer pela necessidade de sustentabilidade, quer ainda pela necessidade de termos mais tempo para nós próprios. Ir ao encontro da simplicidade, rejeitar o consumo excessivo).

5. Integra um passeio na tua rotina semanal

Vai na tua própria companhia sem nenhum propósito em mente. Podem ser 15 min ou 30 min. Deixa o telefone em casa ou coloca em modo de voo. Aproveita esta oportunidade para seres uma pessoa espontânea. Caminha devagar. Olha para o que te rodeia. Sente curiosidade pelo que podes encontrar. Permite-te sentir o sol, a chuva, o frio, o calor, os sons, os animais (caso tenhas a oportunidade de passear num jardim ou no campo), respira de forma consciente.

6. Escrever o que não conseguiste fazer ou o que te entusiasma durante um dia.

a. Hoje não fui ao ginásio
b. Hoje não consegui falar com os meus amigos
c. Hoje não jantei com a minha namorada
d. Hoje não me ri
e. Hoje não dancei
f. Hoje não li o meu livro que me apaixona

Enquanto monitorizas e registas as tuas atividades, vais tomando consciência do que sentes e o que te leva a sentir de determinada forma. Tomas as rédeas da tua vida. Tomas a responsabilidade sobre ti.

Sugestão de leitura “a arte do siêncio” de Amber Hatch