Reclamar de algo que não vai mudar tem um custo tão grande quanto não reclamar de algo.
Eu sei muito bem a importância de reclamar, de me posicionar diante dos problemas;
de apontar o que está errado, de lutar pelo bem e pela justiça.
No entanto, e porque que conheço tão bem esta lição que — em momentos específicos — vale a pena deixar entrar nas nossas mentes outro pensamento muito mais peculiar , não para substituí-lo, mas para acompanhá-lo:
– a importância de — às vezes — nos afastarmos silenciosamente da decepção, da irritação e de ficarmos quietos; de não reclamar.
Esta situação decorreu de um episódio em que criei expectativas sobre a ajuda de determinado profissional. Fui eu que criei a expectativa de que aquela pessoa me iria ajuda de determinada forma e, apesar de todo o trabalho pessoal que fiz, que faço e que farei, dei por mim numa posição de criança, amuada e irritada e a sentir-me injustiçada por aquela pessoa não me proteger de determinado desconforto.
O primeiro impacto foi de zanga, de incredibilidade, de tal forma que a pessoa disse:
– Vejo que está muito ansiosa e inquieta.
Claro que este comentário foi, diretamente, a minha ferida, pois demonstrei a minha fragilidade e mais zangada fiquei.
Desta vez, escolhi não reclamar, não porque sou fraca ou indiferente ou insensível, mas por uma razão mais fundamental e clara:
porque estou a enfrentar algo que sei que não posso mudar; porque tenho a experiência suficiente de poder reconhecer a impotência e a limitação;
porque reconheço que reclamar de algo que não vai mudar tem um custo tão grande quanto não reclamar de algo.
Pois enquanto reclamamos, impedimo-nos de fazer algo como: inovar, pensar, construir, nutrir.
O outro pode ter capturado as nossas circunstâncias externas, devemos recusar, acima de tudo, dar-lhe o nosso tempo e nossa compostura. No reconhecimento franco de nossa impotência está uma última afirmação de nosso poder.
É por isso que – quando não podemos fazer nada sobre uma determinada circunstância, podemos com dignidade mudar a nossa perspectiva.
Não é que não nos importemos.
Apenas nos recusamos a permitir que o problema insuperável tome mais conta da nossa imaginação e optamos, em vez disso, por focar no que ainda pode ser melhorado e apreciado.
O pessimista tenta libertar-se da indignação fútil e reivindicar a liberdade.
Tentar substituir a vingança e a irracionalidade pela gentileza e pelo pensamento.
Não deveríamos dar aos nossos inimigos o privilégio de consumir as nossas mentes.
Podemos combatê-los com intensidade e então – quando não pudermos fazer mais nada – deveríamos voltar-nos para outro lugar, não para escapar de nossos deveres, mas para melhor explorar o que resta de nossas capacidades de esperança e amor.