Esta semana tive um acompanhamento de uma jovem de 36 anos com o pedido de ajuda: consumos excessivos, baixa de autoestima, dificuldade em colocar limites a si e aos outros.
Já é o nosso 4 encontro e no final da sessão anterior, quando eu esclareci qual o propósito da terapia e quais os pontos que estaria a pensar focar, esclarecendo que a terapia, por si só, não tem a finalidade de diminuir os consumos (pois já existe uma dependência física e que necessitaria de outro tipo de acompanhamento (desintoxicação) e quando esclareci este ponto, o jovem pergunta:
– No seu percurso profissional, já desistiu de algum cliente?
Confesso que fiquei surpresa com a questão e respondi:
– Até ao momento nunca, mas a questão é que estamos numa relação, se o cliente desistir de si próprio (algo frequente) a relação termina, pois a minha função não é desejar algo pelo outro mas sim acompanhar o outro na sua jornada, no seu autodesenvolvimento.
Através desta questão devolvi:
Quem é que já desistiu de ti?
Perante esta questão, teve dificuldade em identificar e dar uma resposta. Aí propus o exercício de visualizar a sua criança interior, como é que ela se aparentava, o que estava a fazer, qual a postura…
A jovem, rapidamente visualizou-se sozinha, sentada no chão, com os braços a apertar as suas pernas, tentando esconder-se e a chorar. Emociona-se e fala do seu pai, (agressivo verbalmente através de ameaças – Se não fizeres… eu saio de casa; és sempre a mesma coisa…da sua mãe, compreensiva, presente, atenta mas sem tomar qualquer ação de proteção da criança, ficando ela própria com medo e insegura).
Trago este pequeno extrato de consulta para falar da importância da nossa criança interior.
Sabemos – em teoria – que é extremamente sensato e necessário tentar cuidar de nós, ter compaixão, paciência e gentileza com quem somos.
A dificuldade é, como faze-lo?
Neste contexto, pode ser útil tentar um pequeno exercício imaginativo:
Imaginar-nos responsáveis por cuidar de uma criança pequena, uma criança de três a cinco anos bastante sensível, vulnerável, delicada, doce, tímida, amedrontada, assustada ….que por acaso é uma versão de nós mesmos quando éramos mais jovens.
Sugiro reservar um momento para nos fazer algumas perguntas:
– Como é que a minha criança lidaria com determinada questão?
– Como é que eu imagino, visualizo a minha criança neste cenário?
Da forma mais adulta possível, estamos a reconhecer as nossas partes mais frágeis de nós.
Para nos apresentarmos numa vida adulta mais justa, calma e gentil há que aceitarmos o quão próximos permanecemos da nossa pequena criança delicada, sensível e propensa a lágrimas que um dia fomos.