A nossa incapacidade de identificar como nos sentimos é muito evidente. Quando eu questiono em sessão:
Como se sente agora que chegou aqui a este espaço terapêutico?
Habitualmente a resposta é bem. Algo tão vago quanto bem.
Nós tendemos a perceber como nos estamos a sentir na medida em que as outras pessoas validaram as nossas emoções como “normais” ou “boas”.
Talvez, um dia quando crianças, expressássemos desejos ocasionais de que a avó morresse, que a escola pegasse fogo ou que pudéssemos nos livrar de nosso irmão mais novo. Estes desejos, frequentemente, são censurados pelas figuras parentais pela dificuldade de ouvir e acreditando que o fato de desejar, ser sinónimo de concretizar.
Caso haja a possibilidade de ouvir esses desejos e não ficar assustados, permitir ouvir sem censura poderia ajudar a que a criança tivesse mais capacidade de explorar o seu mundo interno sem medos. Seria o legado mais importante pelo fato de ter sido ouvido pelos outros.
Para começar a recuperar um melhor controlo sobre os nossos verdadeiros sentimentos, devemos submeter-nos a um exercício: devemos fazer uma série de perguntas estruturadas a nós mesmos.
Devemos direcionar as seguintes perguntas a nós mesmos, sem pensar muito enquanto respondemos, simplesmente dizendo o que vem imediatamente à mente (nosso verdadeiro eu tende a se esconder ou mentir se tivermos muito tempo para responder).
Eu sinto…
A resposta pode ser mais triste, mais esperançosa ou mais repetitiva do que imaginávamos ou queríamos imaginar. É importante dar um lugar a esse sentir, ou seja, em que parte do meu corpo se manifesta ou se faz presente esse sentir, por exemplo: na zona do peito (como se não conseguisse respirar; nas pernas que ficam pesadas e não me consigo mexer, …)
Eu realmente preciso…
Estamos tão ocupados com as exigências dos outros que, normalmente, esquecemo-nos de observar as nossas próprias necessidades. Elas podem não se encaixar na visão padrão de quem deveríamos ser ou do que é respeitável querer, o que torna sua aceitação ainda mais importante. Pode não ser perfeito que queiramos voltar para o nosso ex ou dizer à nossa mãe que a desprezamos ou que precisamos de nos enrolar numa bolinha e chorar. Mas é extremamente útil saber que esses são nossos desejos, o que evita que nossas mentes se fechem numa depressão ou ansiedade – ou que nossos corpos tenham que nos empurrar para a percepção por meio de uma contração muscular ou uma constipação ou dores nas costas.
Estou com raiva porque…
Desde muito cedo, provavelmente fomos educados a não expressar a nossa zanga mas isso não nos impede de ficarmos zangados e engolirmos a nossa zanga/raiva.
Estou magoado porque…
Somos mais delicados do que imaginamos. Nenhuma hora passa sem que haja algum ferimento em nosso senso de integridade. Aprendemos a ser durões, mas a armadura cobre apenas o nosso eu externo. Por dentro, choramos tanto quanto uma criança de quatro anos.
O meu corpo quer…
É estranho pensar que os nossos corpos podem querer qualquer coisa. Mas eles têm tanto para nos dizer quanto as nossas mentes. E se continuarmos a não ouvi-los, eles terão que começar a insistir em enviar-nos mensagens da única maneira que sabem: por meio de doenças.
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Depois de elaborarmos esta autoentrevista, é provável que tenhamos uma noção ligeiramente diferente de quem somos em relação ao que imaginávamos.
Somos mais estranhos, sem dúvida, mas também somos muito mais interessantes, honestos e vivos.
Trocamos uma identidade plastificada pela verdade.
Quanto mais pudermos estar cientes do que realmente vivenciamos, mais leves e aliviados podemos nos sentir.