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Quando se ama alguém que não se sente digno desse amor

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Neste mês, que artificialmente se designou pelo mês do amor, trago uma pequena história de amor/desamor. Começo com uma afirmação que acredito em absoluto:

O que move o mundo é a necessidade de reconhecimento de nós pelo outro.

Imagina um relacionamento entre a Joana e o Diogo.

Estão a conhecer-se, há mais ou menos 4 meses, vão ao cinema, já tiveram oportunidade de terem dois fins de semana românticos; ela leva-o para conhecer os pais dela, e fazem um jantar com amigos de ambos. Tudo parece estar a correr muito bem.

Mas vamos imaginar que o Diogo foi uma criança não investida emocionalmente, pela sua mãe, ou seja, a sua mãe era indiferente e desinteressada por ele (até porque não ficou contente quando soube que iria ter um rapaz pois o seu sonho era ter só raparigas) assim prefere dedicar-se mais às suas irmãs .

Apesar de Digo já ter 28 anos, ter sucesso profissional, ele continua a carregar uma ferida emocional de ter dificuldade em ser amado e ser visto tal como ele é.

Quando a Joana começa a oferecer mais a sua presença, o seu carinho, os problemas iniciam-se.

Não é que o amor dela seja indesejado.

É só que – num nível inconsciente – é profundamente difícil de aceitar. Para se proteger da sua ferida de infância, o Diogo construiu uma máscara para suportar o isolamento e a solidão. Ele teve que fazer as pazes com a privação e duvidar da sinceridade de qualquer um que quisesse tratá-lo bem.

Podemos supor que aceitar um presente que já foi negado será especialmente fácil – mas não é assim que as nossas mentes funcionam.

Na chegada daquilo que sempre desejaram, aqueles que são privados tendem a tornar-se extremamente exigentes, difíceis, céticos e argumentativos. Fazem uma cena. Eles arruínam a atmosfera. Eles querem fugir do que é vivenciado como, secretamente, insuportável na sua beleza, plenitude e esperança.

Diogo está implicitamente a dizer:

“Não me amas o suficiente – ou pelo menos não da maneira certa.”

Há nesta percepção uma exigência: Diogo parece não conseguir aceitar que a Joana seja apenas boa o suficiente, em vez de perfeita – como nenhum ser humano pode ser.

Ele argumenta com as características comuns da Joana como uma arma contra ela.

Se pensarmos em termos de alimentação, alguém que foi deixado com muita fome pode ser especialmente complicado quando uma refeição é oferecida.

Podem tornar-se excessivamente idealistas em vez de realistas sobre o que é bom e suficiente.

Pessoas privadas de algo, podem tornar-se mais exigentes nas suas fantasias do que precisam para mantê-los vivos: eles imaginam a refeição perfeita.