Recentemente foi interpelada por uma pessoa do meu antigo trabalho, que me viu e disse:
Eu não te sentia ali. Perguntava-me, frequentemente, eu gostava de sentir a Ana. Onde andavas?
Ouvi esta frase e disse:
Estava perdida!
Até aos meus 42 anos (já lá vão 18 anos) o meu propósito não era seguir o chamado da minha alma, apenas cumprir com o que esperavam de mim, o que era suposto fazer, concursos, estudos, ambicionar cargos mais elevados, chegar ao cargo mais elevado da carreira onde estava inserida. Tentei encaixar-me numa narrativa global onde vivia, onde exercia a minha profissão, sem me questionar. A vida mundana foi matando a minha energia, a minha alma
O medo, muito medo do fracasso, eu tenho de fazer, eu tenho de pagar, eu tenho de mostrar, eu tenho de …. Esse medo bloqueou-me e impediu-me de viver.
Foram tempos exigentes e difíceis para mim, pois não me sentia fiel a mim mesma, mesmo sem ter consciência, sentia-me cansada, exausta, o sono não era reparador, os dias sucediam-se sem entusiasmo, justificando-me com as exigências que vivia do meio externo (mãe doente, pai sozinho, filha pequena e outra na adolescência, havia sempre um motivo exterior que poderia justificar esse meu estado desnutrido, fora do meu ritmo e com extremo cansaço).
Sentia-me infeliz sem o saber.
Havia muitas pressões, circunstâncias, pessoas, compromissos que tinham de ser honrados, respeitados com o exterior e sendo altamente desrespeitadora de mim própria, das minhas necessidades.
Aos 42 anos com duas filhas, uma com 15 anos e outra com 7 anos, tive a minha primeira grande perda – a morte da minha mãe.
Quem me acompanha nesta jornada, sabe que a minha mãe teve depressão pós-parto e não esteve disponível, emocionalmente, para mim e fez o que conseguiu. Apesar de eu ter cuidado sempre da minha mãe, a verdade é que esta perda física me confrontou com a morte física e com partes de mim que já não eram necessárias. Eu existia, também, porque era necessário cuidar da minha mãe. Por isso, também houve uma parte minha que morreu.
Quem era eu sem ser a cuidadora da minha mãe?
Sem ir visitá-la todos os sábados?
Apesar de me sentir mais livre, e também senti mais o meu próprio vazio interno.
Algo não estava bem para mim. Sentia-me exausta, confusa, irritável, triste, zangada.
Como consigo não me deixar contaminar pelo exterior, pelo caos?
Como posso navegar na vida sem perder o meu sentido de identidade?
A nossa sociedade privilegiou muito a mente racional, negando todas as outras áreas, como se a vida fosse um processo linear e apenas lógico.
Mas para cada experiência, fui me dando conta que existe uma força e uma contra força.
Comecei a ouvir a Voz do meu interior e a procurar sinais no exterior. Então, surgiu a oportunidade de fazer uma formação em psicoterapia gestalt e abracei esta ideia com todas as minhas forças. Não conhecia e senti que seria algo que me trazia mais conhecimento e queria abrir as portas ao meu mundo interno.
Comecei a fazer terapia em 2009 com 44 anos.
Comecei a sentir-me e a deixar sentir sem julgamentos. Comecei a trabalhar em grupos terapêuticos e deixar-me ver e a ver outra pessoa, a confrontar-me com o que me movia na vida.
Aos 51 anos perdia o meu pai. Agradeço, profundamente a mim própria já estar num processo de autoconhecimento, agradeço a rede de relações que fui construindo que me suportou e me permitiu viver esta perda com o menor trauma possível.
Nesse dia fiquei órfã! Que sorte, dirão muitas pessoas que perdem os pais muito mais cedo e, sim considero que sou muito abençoada por poder viver com os meus pais até à idade adulta (apesar da idade adulta no cartão do cidadão não corresponder diretamente à minha idade emocional).
Hoje com 60 anos considero-me muito mais adulta e madura do que me sentia na altura. Poderão dizer pois passaram 10 anos… não creio que tenha a ver com esse tempo linear e cronológico mas sim com a meu desenvolvimento pessoal: quem sou? o que pretendo deixar por aqui? qual o meu propósito nesta vida?
Eu estou a aprender a viver para mim mesma e por mim mesma e não para o que o mundo pensa ou espera de mim. Comecei a dar-me conta do meu tempo e do meu ritmo.
Sinto-me muito abençoada por esta dança entre o interior e o exterior, descobrindo cada dia quem sou e quem quero ser, um trabalho continuo e nunca acabado.