Escolhi este mês para partilhar as minhas ideias, o meu sentir sobre a morte.
E o que me levou a este tema? Talvez a vivência com a minha cadela, talvez ainda alguém que, na procura para ter acompanhamento terapêutico, começou por dizer:
“Tenho tudo para ser feliz mas não sou. Gostava de sentir paz, serenidade e não sinto. Estou cansado deste vazio que trago dentro do meu peito.”
Ouvir esta frase de um homem de 60 anos, acompanhado de lágrimas e de um olhar inundado de dor e tristeza, é extremamente tocante e faz-me sentir uma honra enorme por poder acolher uma pessoa com tamanha dor e pela confiança dessa pessoa no meu trabalho, na minha pessoa.
Tivemos a nossa primeira sessão (habitualmente esta sessão tem como finalidade conhecer melhor a pessoa que me solicita ajuda para ultrapassar algumas fases mais exigentes da sua vida).
Na sua história sucederam-se diversos acontecimentos:
– separação conjugal,
– alguns relacionamentos amorosos,
– mudanças de emprego, mudanças de país,
– saída de casa,
– a morte de um filho com 21 anos.
Já lá vão 18 anos e ainda me faz chorar. Quando um filho morre primeiro que os pais, parece algo muito errado. Tudo o que pensei ou senti sobre a Vida, tudo parece muito errado. Sem sentido. Um absurdo.
Outra pessoa que acompanho em processo terapêutico, quando se recorda da perda da sua mãe, já idosa que partiu faz agora 9 anos.
Eu não estava preparada para o golpe que senti no meu corpo. O quão físico foi e quantas mudanças de identidade me trouxe.
Outra pessoa em processo terapêutico que recorda a perda do seu marido:
Quando o meu marido morreu foi uma dor enorme e já lá vão 4 anos e ainda hoje me emociono e sinto um enorme vazio dentro de mim e uma falta de alegria.
Estes testemunhos trazem-me uma questão: não fazemos o luto de quem perdemos. Não superamos a dor da perda.
Acredito que existam muitas pessoas, pela vida que não processaram a dor da perda.
Vivemos numa sociedade onde não há espaço para viver a dor, para expressar a tristeza. Como se fosse algo que tivesse de ser banido, escondido, que envergonhasse. Sofre-se em silencio, guarda-se a dor, avança-se com a vida, fazemo-nos de fortes e escondemos de nós próprios o vazio que habita dentro de nós. Há que aprender a lamentar com o coração e não com cabeça. O que significa isto?
Expressar os sentimentos, ventilar o que vai dentro do nosso coração, chorar, gritar, escrever, despedir-se … quando seguramos a nossa dor, somos estrangulados por ela. Se tivermos medo de contactar com essa tristeza, desconectamos da nossa natureza humana.
No entanto existe uma auto exigência:
Já devia ter ultrapassado.
Fico desapontado comigo mesmo por ainda não ter ultrapassado.
As pessoas que nos rodeiam referem: já morreu há 1 ou 2 anos, não fales mais nele ou nela, avança com a vida. Sorri, sê feliz.
A verdade é que quando a morte é inesperada, cria um buraco enorme na vida. Não há forma de acelerar esse processo. Demore o tempo que precisar. O processo de luto não é uma constipação em que se toma umas vitaminas e se sinta melhor 1 a 2 dias depois.
O luto é um processo onde existe uma tristeza profunda.
A dor estará sempre presente.
O importante é aprender a viver com ela.
Partilho um testemunho que senti ser tão claro:
o luto é como entrar no oceano, a primeira vez és batido pelas ondas, atingido por todas as ondas e vais ao chão, engoles água, cais, és enrolado, afundas-te mas depois passas as rochas, as ondas ainda te atingem, ainda é difícil mas começas a aprender o ritmo das ondas e começas a nadar. Por vezes, surgem tempestades e vais ficar bem . Existem dias nublados, chuva e também existem ias de sol radioso. Por vezes sentimos culpa por vivermos momentos felizes e não termos conosco, aquela pessoa que amamos, sentia culpa por poder estar a esquecer.
É importante reconhecer que existe sempre um lado mais escuro, um lado triste e aprender a viver com esse lado. A dor não se vai embora, a tristeza também não mas cresce uma camada em torno dela e continua-se a viver.
O processo de luto é algo vivo, ou seja, acontece em cada célula do nosso corpo. Tudo muda para sempre e por isso há que cuidar com muito amor, compaixão, empatia e autoconsciência. Há que confiar na Vida, nas pessoas, em si mesmo e um novo começo inicia-se. Há que acreditar que existem coisas, pessoas, circunstancias bonitas à nossa espera.
A vida é um constante processo de transformação e evolução.
Tudo ao nosso redor está sujeito a mudanças, seja no nível físico, mental, emocional e/ou espiritual. As pessoas crescem, aprendem, experimentam coisas novas e se adaptam às circunstâncias em constante mudança.