"Como seria a vida se não vivêssemos tristes, ansiosos, apressados, desconectados de nós mesmos?"
Ocasionalmente, temos um vislumbre de como seria ser, verdadeiramente, feliz.
Numa noite de verão enquanto observamos o céu estrelado, sentimos uma brisa leve que nos acaricia;
Quando acabamos de nos recuperar de uma doença;
Após termos sido, profundamente afetados por um livro ou um filme ou talvez após termos realizado uma caminhada sozinhos pela cidade, praia ou pelo campo.
Na sequência deste panorama maravilhoso, somos assolados por um pensamento:
E se nos permitíssemos ser felizes?
Como seria a vida se não vivêssemos tristes, ansiosos, apressados, desconectados de nós mesmos?
E se pudéssemos apreciar a vida em todo o seu potencial e beleza?
E se estivéssemos atentos ao aqui e agora e nos permitíssemos conectar mais, profundamente, conosco mesmo e com os outros?
E se olhássemos a vida sem reservas, sem suspeitas, sem medos, sem preconceitos?
E se nos rendêssemos a amar e a ser amados?
Surgem vários argumentos:
– A vida não é sempre êxtase
– A vida é difícil
– A vida tem de ser conquistada
– As pessoas são más
– Temos obrigações, e como tal têm de ser executadas com dor e sofrimento
– Há que fazer sacrifícios
….
E porque não integrar estas duas faces?
E se a nossa realidade não nos exigir nada tão fixo e estático, mas algo mais flexível?
Cresci, tal como a maioria das pessoas, num ambiente em que a alegria era fugaz e não poderia existir durante muito tempo. Dou alguns exemplos de frases ouvidas:
– “É só hoje, porque é o teu aniversário“
– “Amanhã é dia de trabalho“
(e desta forma transmite-se que trabalhar é árduo, difícil e não dá prazer)
– “a vida não está sempre em festa e alegre“
Como se a alegria fosse sinónimo de leviandade, de superficialidade, de imprudência, de irreflexão, de ligeireza…
Quando ria alto, dava uma gargalhada, sentava-me a contemplar o céu e sorria, havia logo um comentário:
– não tens nada para fazer?
– isso é que é vida, de papo para o ar (era sentido por mim num tom depreciativo)
– Achas que o dinheiro cai do céu?
E rapidamente, o meu sentir de plenitude, de felicidade se transformava e preparava-me para um longo tempo de privação emocional, apegando-me a um estado de tristeza, aprendendo a esperar pouco da Vida e dos outros.
Sem perceber o que aconteceu e porquê, dou por mim a ser leal ao que me foi transmitido e vivido nos meus primeiros anos de vida. E dou por mim, a proferir as mesmas frases as minhas filhas:
– Isso é que é vida
– A vida corre-te bem (em tom depreciativo)
– Não tens nada para fazer?
Dou-me conta deste tom e penso:
Mas e se nesta fase da minha vida, não houvesses razão para continuar agarrada à tristeza e à preocupação?
E se eu pudesse ousar, tornando-me diferente, mais permeável à alegria e à esperança?
Posso estabelecer vínculos de amizade que se tornem fonte de satisfação; escolher um parceiro que me acrescente e não me traga a sensação de isolamento e de peso; posso aumentar a minha rede de interações e abrir-me ao novo… e posso acreditar que estou viva para ser feliz, para ser autêntica e acrescentar-me, diariamente, com as diferentes interações que estabeleço.
Posso permitir-me ter prazer a tomar o meu pequeno-almoço, tendo este momento como um ato de amor próprio.
Partilho este testemunho no sentido, de tu também te permitires a ser feliz , sem culpa, sem peso e sem necessidade de justificar a tua felicidade, ou seja, estar vivo já é a justificativa de ser feliz.
Claro que ser feliz não é sinónimo de irresponsabilidade, pois também faço muitas atividades por disciplina porque as tenho de fazer mas sempre com o sentido de que posso escolher fazer num tom pesado e triste ou com leveza e alegria de que estou viva.