"Lamento não sermos ensinados a viver connosco"
Somos ensinados sobre história, matemática, português, geografia, … e é tudo necessário. Lamento é não sermos ensinados a viver connosco, a sentir-nos, a entender a distinguir as emoções e como expressá-las.
Se não entendo o que sinto e não me dou permissão para sentir, suprimo, escondo, anulo, excluo, apago, abafo…e mais tarde ou mais cedo, as emoções vão encontrar uma forma de saída, frequentemente, através do corpo. Tal como diz a expressão:
"o que a boca cala, o corpo fala"
Não quero transmitir uma visão simplista e assumir de forma direta que a não expressão de emoções conduz diretamente ao adoecer, pois tal como já tenho vindo a dizer, não somos máquinas com determinados algoritmos em que determinado fator conduz necessariamente a determinado resultado, pois existem inúmeras variáveis que se interligam.
Todavia, existe uma maior probabilidade de adoecer por aquilo que não dizemos. Quando deixamos de falar e expressar os nossos sentimentos, escondendo o que realmente sentimos pode conduzir a problemas de relacionamento, sintomas emocionais e físicos.
O que não conseguimos expressar em determinado momento, seja uma opinião ou algo que nos fizeram que nos magoou e, portanto, não simbolizamos na nossa psique, pode manifestar-se pela via corporal como uma dor de cabeça, dor de estômago, contraturas, tiques, entre outras manifestações, por vezes mais graves.
Como não somos ensinados a sentir e a expressar o que sentimos, não encontramos as palavras para expressar o que sentimos, e então o corpo entra em cena e reage. Não sabemos nomear com exatidão o que acontece connosco para que as pessoas nos entendam.
Porque designei este texto de “não há curador mais eficaz do que um curador ferido”, pois o terapeuta só consegue acompanhar o outro até a lugares que ele próprio, também, já experienciou. Quer isto dizer que também eu não soube gerir as minhas próprias emoções e cheguei a ter crises de ansiedade, mal estar gástrico, intestinal…e após o inicio do meu próprio processo terapêutico, iniciei a aprendizagem do contacto com as minhas emoções.
Para sentir é preciso tempo, ir pouco a pouco entrando na situação e a situação ir começando a entrar em mim. No frenesim da nossa sociedade, em que a comunicação e a informação são tão intensas, que não deixa espaço ao sentir. Tal como refere o filosofo Byung-Chul Han(2021) não são as coisas que determinam o mundo em que vivemos, mas sim as informações. Nada é firme e palpável.
As informações são aditivas e não narrativas, ou seja, podem contar-se mas não são narradas. Contudo só as narrativas estabelecem contexto e significado e só aí pode-se dar espaço ao sentir. Assim, é importante o espaço terapêutico onde se proporciona tempo e espaço para a pessoa se sentir através da narrativa e da escuta ativa e empática.
Na literatura é comum encontrar-se a nomenclatura “emoções básicas“. Porém, assim como não existe um consenso quanto ao modelo teórico que explica o funcionamento emocional, também não existe uma só definição em relação a quantas e quais são as emoções básicas. Contudo, a maioria dos autores costuma citar as seguintes: alegria, medo, surpresa, tristeza, nojo e raiva.
A alegria: ocorre quando existe algo avaliado como sendo de valor, havendo uma tendência de reter ou repetir; é também comumente referenciada como contentamento, jovialidade e associa-se à satisfação com a vida e bem-estar;
O medo: é desencadeado por um evento do ambiente ou por outra pessoa, e que é avaliado como ameaçador, gerando a interpretação de incerteza ou falta de controle em relação ao que pode ocorrer, tipicamente resultando numa resposta de fuga ou de imobilização;
A surpresa: é gerada por um evento inesperado ou a interrupção súbita de um estímulo, provocando uma pausa permitindo que o indivíduo tenha tempo para se orientar. A surpresa é uma das emoções mais breves, durando apenas alguns segundos.
A tristeza: surge quando há perda de algo ou de alguém considerado significativo, levando a uma sensação de abandono e a procura de uma ligação novamente com o mesmo ou com outro objeto, sendo as manifestações mais frequentes o choro, o afastamento e o silêncio. Trata-se de uma das emoções mais duradouras. A angústia pode ser incluída nesse grupo, e inclui agitação associada a desesperança
O nojo: também chamado de aversão, é desencadeado por objetos considerados repulsivos e indesejáveis, com a tendência subsequente de expulsão ou remoção do objeto;
A raiva: surge ao se deparar com um obstáculo avaliado como hostil, interferindo no que se está fazer ou que se tem intenção de se fazer. Se se tem a percepção de que a interferência é intencional, em vez de acidental, de modo a parecer que a pessoa que interferiu, escolheu essa ação, o nível de raiva pode ser ainda maior.
A abordagem das constelações familiares,
permite identificar os bloqueios, ou seja, traumas insuportáveis, culpa, dor imensa que os antepassados não conseguiram gerir ou resolver e que forma transmitidos de geração em geração. Ao bloquearmos os sentimentos e a expressão de emoções, estamos a evitar o processo de cura.
Tal como diz Carl Jung “o que não é consciente, será experienciado como destino”, ou seja, repetimos padrões inconscientes até ao trazermos à luz da consciência . E tal como diz a minha mestre em Constelações Familiares- Paula Ponce- onde à expressão de emoções à transformação.
Na abordagem das gestáltica,
utilizamos diversas técnicas para a pessoa “dar-se conta” do que o seu corpo transmite e poder ficar aware destes fenômenos e poder expressar as suas emoções retidas, bloqueadas.
Tanto na abordagem das constelações familiares como na abordagem gestáltica, alicerça-se, sempre numa relação terapêutica de empatia, aceitação, respeito , autenticidade, escuta ativa e confidencialidade. Termino com uma frase do conto “Alice no País das Maravilhas”