"É porque temos tanta dificuldade em perceber o que sentimos, quem somos, o que queremos e o que nos motiva que acabamos por ter relações não prazerosas, seguir carreiras insatisfatórias, não conseguir estabelecer contactos nutridores com os amigos, gastar o nosso dinheiro de forma inadequada, ter conflitos com colegas e transmitindo uma série de nossos problemas para a próxima geração."
Um dos maiores paradoxos do ser humano é a de possuir mentes tão rebuscadas, com curvas, contracurvas, vales, planícies e montanhas que nunca se conhece completamente. Mesmo quem realiza um trabalho de autoconhecimento durante anos, tal como quem escolheu exercer uma profissão de ajuda, de serviço, está condenado a morrer apenas com a compreensão de uma pequena parte do que foi. Trazendo uma metáfora, é como se fossemos castelos com inúmeras divisões, corredores, arrecadações, salas, quartos, jardins, quartos escuros… e que estejamos munidos com lanternas com luzes fracas.
Se fizéssemos uma pausa e tivéssemos a intenção curiosa de nos perguntarmos o que realmente estávamos a sentir num determinado momento, poderíamos tornar-nos conscientes de um conjunto amplo de preocupações e sentimentos.
Fazendo este exercício no “aqui e agora”, dou-me conta que tenho um agendamento de uma consulta dentro de 30 minutos; que me dói a minha unha do pé direito; que preciso de chamar um técnico para arranjar o exaustor; que o céu está com nuvens e já sinto um arrefecimento ambiental; que tenho roupa estendida e que, provavelmente, vai chover e tenho que recolher a roupa; que a minha filha mais nova saiu, e “será que levou chapéu de chuva?”; que o meu vizinho está a ouvir um música que me incomoda; que me apetece fazer um chá; que enviei um email ontem que deveria ter recebido uma resposta e não recebi; que tenho uma grande amiga a iniciar um tratamento de quimioterapia e sinto-me conectada com a sua dor e angústia; que… que há algo quase espiritual para emergir dentro de mim.
Ao longo da nossa jornada, somos encorajados a perder parte de nossa própria complexidade porque seguimos o exemplo dos outros e estes vistos de fora, parecem muito mais simples do que são. Tal como ouvi há muitos anos, no início do meu processo terapêutico, “os outros mostram as montras e não as arrecadações (lixo acumulado, coisas partidas, desatualizadas, esquecidas…). Ficamos “presos” no engano e não vemos a hesitação, confusão, genialidade, escuridão, riqueza que existe dentro do outro e, por isso dentro de nós mesmos. Ficamos na camada mais superficial.
É porque temos tanta dificuldade em perceber o que sentimos, quem somos, o que queremos e o que nos motiva que acabamos por ter relações não prazerosas, seguir carreiras insatisfatórias, não conseguir estabelecer contactos nutridores com os amigos, gastar o nosso dinheiro de forma inadequada, ter conflitos com colegas e transmitindo uma série de nossos problemas para a próxima geração. Sentimo-nos encurralados, sem liberdade e sobrecarregados por um peso de pensamentos, emoções não interpretadas e sentimentos não sentidos. É por causa da nossa auto ignorância que não conseguimos determinar se estamos a sentir amor ou obsessão, que não conseguimos descobrir as origens das nossas ansiedades e surpreendemo-nos com nossa irritabilidade exagerada ou raiva quando perdemos as nossas chaves ou quando um colega se atrasa para a reunião.
O nosso corpo vai dando sinais quando não estamos sintonizados com as nossas necessidades. Envia-nos dores de cabeça, espasmos e compulsões neuróticas; descobrimos que não conseguimos dormir ou acordamos tão ou mais cansados do que quando adormecemos, ou desenvolvemos dependências. Podemos perguntar-nos porque é que as coisas não são tão simples como imaginávamos: porque é que os nossos relacionamentos continuam a falhar, porque é que as nossas costas nos doem, porque é que o sono nunca vem e porque temos tanto medo do imprevisto, do inesperado.
Deveríamos desejar ser pessoas que nunca deixam de tentar dar sentido a si mesmas, que querem ser capazes de responder como a sua infância os moldou, qual é o seu estilo de apego ou onde termina a realidade e começam as suas projeções.
Dever-nos-íamos dedicar a tentar diminuir os nossos lugares de escuridão dentro de nós; trazendo o que antes estava na sombra para mais perto da luz para que tenhamos a oportunidade de ser um pouco menos frenéticos, destemperados e impulsivos para os outros e para nós mesmos.
Termino citando Sócrates, filósofo grego, quando questionado sobre o propósito maior do ser humano: “conhece-te a ti mesmo”.
Sem autoconhecimento, todos os demais esforços serão em vão.
Começar a árdua tarefa de olhar para dentro numa sociedade que insiste em olhar para fora, comparar, competir.