Sempre acreditei que é importante aprendermos uns com os outros e tentar não reincidir nos mesmos “erros”. Assim, eu questiono-me sobre o que estamos a fazer com as nossas crianças/ adolescentes e connosco mesmo?
Proibir a utilização de telemóveis na escola?
A propósito do “consumo” de tempo em frente aos ecrãs, em mais um início do ano letivo, e das reflexões que têm surgido sobre a possibilidade de proibição de telemóveis nas escolas, sinto necessidade de refletir sobre este tema.
Talvez por ter sido professora durante muito tempo.
Talvez por a área da saúde mental me seja muito cara.
Talvez por ser mãe.
Talvez por observar o comportamento de crianças, adolescentes, adultos em qualquer mesa de restaurante ou num local de espera.
A verdade é que é um tema que me inquieta. Claro que a pertinência desta reflexão se deve, também, a uma nova decisão tomada pelos países do norte da Europa.
A Suécia, único país que, desde a década de 1990, procurou implementar a educação 100% digital nas escolas, voltou atrás e decidiu investir, ao longo de 2023, na distribuição de livros didáticos impressos. Alguns fatores que contribuíram para esta decisão:
- Os alunos têm atualmente menos capacidade de concentração.Diminuição no desempenho da leitura
Dedicam menos esforço para escrever bem, porque programas de ortografia automática fazem a escrita parecer mais fácil do que é.
O principal problema é que o computador também é uma distração
A Universidade de Harvard mostrou que exagerar nas telas pode levar a:
prejuízos na comunicação,
problemas no sono e
atrasos no desenvolvimento cognitivo.
Em Portugal, quem tiver filhos na década dos 20 anos, lembrar-se-á do computador Magalhães (2008), que marcou o início de algo semelhante ao iniciado na Suécia em 1990 (digitalização do ensino). Ainda assim, verificamos que existe um delae de 18/20 anos, relativamente à Suécia.
Sempre acreditei que é importante aprendermos uns com os outros e tentar não reincidir nos mesmos “erros”. Assim, eu questiono-me sobre o que estamos a fazer com as nossas crianças/ adolescentes e connosco mesmo?
Estaremos nós a incutir, mesmo que de forma inconsciente, a utilização de telemóveis na nossa sociedade? Às nossas crianças e adolescentes?
O livro “A fábrica de cretinos digitais” de Michel Desmurget (neurocientista francês) apresenta-nos dados, na minha perspetiva muito preocupantes. No seu livro de 2019, apresenta os seguintes indicadores da realidade da europa ocidental:
O consumo recreativo do digital – em todas as suas formas (smart-phone, tablets, televisão, etc.) – pela nova geração é absolutamente astronómico:
idade superior ou igual a 2 anos- 50 min diante da tela.
Entre 2 e 8 anos, esse tempo é de 2h45min.
Entre 8 e 12 anos, os jovens passam aproximadamente 4h45min diante dela.
Entre 13 e 18 anos, eles chegam perto de 7h15min.
Ao fim de um ano, isso totaliza mais de 1.000 horas para um aluno da pré-escola (1,4 mês), 1.700 horas para um estudante do nível
fundamental (2,4 meses) e 2.650 horas para alunos do ensino médio (3,7 meses).
Expresso em fração do tempo diário, isso resulta, respetivamente, em 20%, 32%, 45%. Ao longo dos 18 primeiros anos de vida, eles representam o equivalente a quase 30 anos letivos, ou, se preferirmos, 15 anos de um emprego em tempo integral.
Para muitos cientistas, professores, educadores, psiquiatras, psicólogos, etc, – esta é a era digital natives (nativos digitais). O cérebro destas crianças tornar-se-ia mais rápido, mais reativo, mais apto à multiplicidade simultânea de tarefas, mais competente para sintetizar as informações e mais adaptado ao trabalho colaborativo. Essas evoluções acabariam por representar uma possibilidade extraordinária para a escola, pois ofereceriam uma oportunidade absolutamente única de refundar o
ensino, estimular a motivação dos alunos, fecundar sua criatividade, eliminar o fracasso escolar e derrubar o bunker das desigualdades sociais.
Não quero “demonizar” o telemóvel nem qualquer dispositivo eletrónico, pois consigo identificar muitas vantagens também.
Contudo, ao longo da minha experiência de vida, sei e quero continuar a estar consciente para encontrar o “caminho do meio” tal como defende a perspetiva budista ou tal como dizemos “no meio está a virtude”.
Ao analisares estes dados relativos ao consumo e à utilização dos dispositivos eletrónicos, quer nas escolas como no dia a dia, qual a tua visão sobre este tema?
As vantagens da utilização e do desenvolvimento nesta área são diversas, mas serão suficientes para equilibrar às desvantagens do excesso de utilização.