Se presenciássemos alguém tratar um estranho da maneira como nos tratamos, ficaríamos impressionados?
O modo como falamos connosco próprios é uma internalização (modo como o indivíduo toma para si os padrões sociais, ou seja, incorpora as normas de ação, crenças e comportamentos estabelecidos pelos primeiros cuidadores) nos falavam. A nossa consciência foi formada a partir das vozes e ações dos nossos primeiros cuidadores. O nosso diálogo interno reflete a maneira como as pessoas particulares que amamos e estimamos, nos responderam, ao longo da nossa infância. Gostamos da forma como nós falamos quando estamos atrasados? Achamos útil tratarmo-nos com zanga quando somos rejeitados no amor? Em resposta aos nossos erros, abordamos as questões com inteligência construtiva? Ou destrutivamente? “é sempre a mesma coisa, a culpa é tua, ficaste envergonhada e não falaste, foi pela falta de disponibilidade que o teu namorado/a se foi embora, estás sempre adiar, nunca consegues chegar a horas…. E, como nos sentimos em relação às pessoas que nos ensinaram sobre o certo e o errado, sobre a culpa e o dever, sobre o esforço e a necessidade? Será que as coisas correram bem para eles? O seu modo de vida era admirável e adequado para ser imitado? Partilho convosco, uma experiência pessoal que teve um grande impacto em mim.
Já adulta, mãe de duas crianças adolescentes a realizar uma etapa académica em que necessitava de escolher 2 professores para orientarem o meu trabalho final, dei por mim a trilhar uma caminho muito duro e muito difícil e quando trabalhei esta questão em terapia, consciencializei que escolhi 2 professores que representavam as 2 grandes “vozes” da minha vida- a minha mãe (que por diversas razões, especialmente de saúde mental, esteve emocionalmente ausente nos primeiros cuidados à minha pessoa, o que se denomina mãe ausente, abandónica e escolhi como co-orientador uma pessoa com o perfil do meu pai, super exigente e que tudo o que apresentava não estava adequado e tinha de ser alterado. Assim, já uma mulher adulta perto dos 50 anos, fui viver uma experiência dolorosa e conhecida. Só com a orientação da minha terapeuta, me dei conta deste meu padrão. E só com consciência é possível alterar padrões, se for a nossa escolha. Até esse momento fazemos escolhas de modo inconsciente. A nossa consciência pode estar a falar-nos de vozes muito distantes. Até que ponto precisamos, realmente, de nos “bater” quando cometemos um erro?
Se presenciássemos alguém tratar um estranho da maneira como nos tratamos, ficaríamos impressionados?
Ou poderemos – talvez – sentir-nos tentados a intervir ou solicitar a presença de autoridades externas, como por exemplo a polícia? Podemos já não pensar neles todos os dias, mas um conjunto de figuras dominantes do nosso passado ocuparam – sem o nosso conhecimento – lugares nas nossas mentes. Talvez seja tempo de nos libertarmo-nos dessas vozes e podermos ter palavras e atitudes mais suaves e produtivas que ansiamos e prezamos Foi suficientemente mau sofrer o que fizemos; Não precisamos, além de tudo, continuar a nos lacerar, internamente, para apaziguar um conjunto de fantasmas ingeridos sem consciência.
Talvez possamos aprender a sê-lo, conscientes, sem os gritos e o mal-estar vivido em criança. Podemos construir uma “nova” consciência de nós próprios com amor e auto-compaixão.